sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Jogando a vaquinha leiteira no precipício

Um velho sábio caminhava pela estrada com seu jovem discípulo quando avistou ao longe um sítio de aparência muito pobre e resolveu fazer uma breve visita. Enquanto seguiam para a casa o mestre falou para o rapaz sobre a importância de falar com as pessoas e das oportunidades de aprendizado que temos ao conversar com as pessoas que não conhecemos.

Bateram à porta e foram alegremente recebidos pelo pai daquela família, que os convidou a entrar na pequena casa. Era tudo realmente muito pobre. A casa era de madeira e o piso apenas chão batido. A família — o casal e três filhos — usava roupas rasgadas e sujas e todos pareciam não se alimentar o suficiente.

Depois de se acomodarem em tamboretes de madeira e tomarem água, o sábio perguntou ao dono da casa:
—Vejo que neste lugar não há pontos de comércio ou locais de trabalho. Como o senhor e a sua família sobrevivem aqui?

O homem respondeu:
—Meu amigo, a situação é muito difícil, mas graças a Deus temos aqui uma vaquinha que não nos deixa passar fome. Tomamos o leite que ela dá todos os dias e às vezes até sobra um pouco e fazemos um pequeno queijo que vendemos na cidade vizinha. Quando o bezerro cresce nós o vendemos e trocamos por alimentos que podemos estocar e vamos comendo enquanto ela produz um novo bezerrinho. E é assim que vamos sobrevivendo nesse lugar esquecido.

O sábio conversou um pouco mais enquanto contemplava o lugar e depois agradeceu pela acolhida, despediu-se e partiu junto com seu discípulo. Quando já estavam distantes e não podiam mais ser ouvidos pelos moradores do sitiozinho, o velho falou para o rapaz:
—Viu aquele penhasco que fica atrás do local onde aquela vaquinha deles fica pastando?
—Vi, mestre. Por que?
—Quero que volte lá escondido, pegue aquela vaquinha, leve até o precipício e a empurre para que caia lá embaixo.
—Mas mestre—questionou o jovem com os olhos arregalados de espantando—aquela vaquinha é o único meio de sobrevivência daquela pobre família. Por que o senhor quer fazer isso?
—Apenas faça, meu rapaz. No futuro irá entender porque fizemos isso—respondeu o mestre impassível.

Não restando nada a dizer e sem querer desobedecer ao seu sábio mestre, restou ao rapaz cumprir a ordem. Assim ele empurrou a vaquinha morro abaixo e a viu morrer.

Aquela cena ficou marcada na memória do jovem durante muito tempo. Vez por outra perguntava ao ancião, mas ele dizia que tivesse paciência, que um dia entenderia a razão daquilo que tinha sido obrigado a fazer. E o jovem silenciava, triste mas confiante de que chegaria o momento em que compreenderia as razões de seu mestre. 

Seu aprendizado terminou e ele seguiu sua vida. Os muitos ensinamentos que recebeu o estavam ajudando a se tornar um homem bem sucedido. Ele então resolveu ir visitar seu antigo mestre e amigo para contar-lhe de tudo o que vinha conseguindo na vida graças ao que aprendeu com ele.
No caminho para a casa do mestre ele se lembrou daquela família e do que tinha feito a eles e resolveu voltar naquele mesmo lugar, contar tudo a eles pedir perdão. E agora que era um homem de posses podia ajudá-los financeiramente como forma de compensação pelo que tinha lhes feito.
Assim ele seguiu viagem. E quando se aproximava do local onde a família vivia avistou um sítio muito bonito, com árvores floridas, todo murado, com carro na garagem e crianças brincando no jardim. Ficou triste e desesperado imaginando que aquela pobre família tivera que vender o sítio para pode sobreviver.

Chegando à casa, que em nada mais se parecia com aquela que ele tinha conhecido, foi recebido por um caseiro muito simpático a quem logo perguntou sobre a família que ali morava havia alguns anos, ao que o caseiro respondeu:
– Continuam morando aqui.

O rapaz não acreditou até reencontrar aquelas pessoas e ver por si mesmo que, embora estivessem mudadas, se tratavam das mesmas que conhecera junto com o mestre. Ele ficou feliz e aliviado diante da nova situação daquela família e foi conversar com o dono a quem falou:
– Estive aqui anos atrás com meu mestre e era tudo bem diferente. Fico contente em ver que sua família vai muito bem. Como conseguiram prosperar tanto nesses poucos anos?

E o senhor, entusiasmado, respondeu-lhe:
– Naquele tempo nós tínhamos uma única vaca da qual tirávamos o nosso sustento. Mas por uma fatalidade, no mesmo dia em que estiveram aqui, ela caiu no precipício e morreu. Sem poder comprar outra vaca tive que buscar outras formas para sustentar minha família. Plantei ervas e legumes para comer. Como as plantas demoravam a crescer, comecei a cortar madeira para vender. Ao fazer isso, tive que replantar as árvores e precisei comprar mudas. Ao comprar mudas, lembrei-me da roupa de meus filhos e pensei que talvez pudesse cultivar algodão. E por aí a coisa foi. Passamos um ano difícil, no segundo começou a melhorar, até que quando percebi eu já estava exportando legumes, algodão e ervas aromáticas. Nunca havia me dado conta de todo o meu potencial aqui. Depois de tanto lamentar passei a agradecer por temos perdido aquela nossa vaquinha. Ela parecia que era tudo que tínhamos, mas na verdade era um atraso em nossas vidas. Foi quando a perdemos que encontramos o caminho para o sucesso que seus olhos podem ver agora.

Claro que esse texto é uma metáfora e eu jamais incentivaria alguém a atirar um animal de um penhasco. Mas do ponto de vista figurativo é assim que é preciso fazer exatamente isso. Se quisermos chegar ao sucesso temos que, em algum momento da vida, jogar nossa vaquinha leiteira no precipício. A vaquinha é a nossa zona de conforto profissional, aquila coisa ou situação à qual nos mantemos apegados ou recorremos sempre que estamos com dificuldades. Fazemos isso porque sabemos que seu leite, mesmo que seja minguado e não mate direito nossa fome, nos manterá vivos.

O quanto antes você conseguir sair de sua zona de conforto profissional, seja um emprego que não lhe satisfaz, seja um serviço mal remunerado que você oferece, seja o que for, quanto mais rápido se livrar mais rápido conseguirá alcançar o sucesso que almeja e merece. Serão tempos difíceis sem aquele leitinho certo toda manhã, mas valerá a pena, pois o novo sítio terá muitas vacas leiteiras, leite e queijo em abundância pra você, para sua família e para quem vier lhe visitar.

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