segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Desabafo: A ilha de carros que foi tomada pelos gatos

A maior dificuldade de se cuidar de um animal abandonado são as outras pessoas, que não só não ajudam, como atrapalham, sabotam e ainda se acham no direito de reclamar que a gente tem que "dar um jeito", "tomar providências", como se quem cuida de bicho voluntariamente fizesse isso por alguma "obrigação". Pra ajudar que é bom, pra cobrar de quem deveria assumir essa responsabilidade, aí não aparece um!

Até meados de novembro, no condomínio onde moro (o Residencial Búzios, um condomínio popular em Fortaleza), havia 13 gatos vivendo na área comum, dentre eles, 6 filhotes ainda mamando. Agora são seis a menos, sendo que nenhum desses seis foi adotado! Uma, já adulta, morreu de doença respiratória e quatro dos filhotes simplesmente sumiram sem deixar rastro. E 13 menos 5 só não dá 8 porque as crianças do condomínio pegaram sei lá de onde uma outra gata ainda filhote e trouxeram pra brincar, depois largaram aqui. Agora pergunte aos pais se eles sabem quem e de onde trouxe, pra ver se algum deles faz pelo menos ideia?

Patrícia, a protetora dos gatos do condomínio Búzios
Uma moradora — apenas uma! — gasta quase tudo que ganha comprando ração e remédios e ainda pagando castrações para que as fêmeas não mais se reproduzam. Alguém já agradeceu a ela por esse gesto? Alguém já fez alguma menção de reconhecimento? Que eu saiba, jamais! Pelo contrário, é acusada de "fazer do condomínio um criadouro de gatos" e já foi ameaçada de expulsão pela administradora por alimentar esses animais. Eu e minha esposa somos talvez os únicos que ajudamos no trabalho diário que ela tem, não só com os gatos daqui de dentro, mas até com os da rua, pois além das fêmeas daqui ela já castrou duas gatas de fora, uma que vive na calçada em frente e até uma que vive no condomínio ao lado.

Os incomodados, que vivem fazendo cara feia e reclamando, deveriam saber que o cuidado com os animais deve ser arcado em primeiro lugar pelo poder público e, na ausência desse, pelo condomínio. A conta, que é pesada pra um único morador, seria perfeitamente absorvida pelo residencial, cuja a taxa não para de aumentar, com contribuições e mais contribuições para construir estacionamentos (quem não tem carro como nós, paga do mesmo jeito!). Mas quando falei sobre isso para o representante da administradora, ele fez de desentendido e ainda disse que passava recolhendo as vasilhas de comida. O que ainda foi menos do que fez um vizinho aqui, que chutou e quebrou as vasilhas e arremessou o cocô dos gatos na direção da minha janela.

Devem saber também os incomodados que maltratar, ferir animais, envenenar ou "dar sumiço", como alguns aqui já fizeram, tudo isso é crime previsto em lei. Constranger uma pessoa que está cuidando de um animal ou de um grupo de animais abandonados também é ilegal. Se estão tão incomodados assim e querem que providências sejam tomadas, existem dois caminhos dentro da legalidade: o primeiro é acionar o poder público, a quem compete a tutela dos animais, para que de maneira responsável resolva o problema, promovendo castração, cuidado e campanhas de adoção; o segundo é, como falei acima — já que ninguém quer se dar ao trabalho de ajudar e nem mesmo de ir na Regional da Prefeitura que fica a uma quadra daqui —, fazer com que o condomínio assuma a conta.

Nem eu, nem Régia minha esposa, nem a Patrícia, que é a vizinha que cuida dos gatos, trouxe sequer um gato pra dentro do condomínio. Pelo contrário, estamos o tempo todo buscando quem queira adotá-los pra leva-los daqui. Sabemos e concordamos que um condomínio não é o local adequado para eles viverem, só não concordamos com a “solução rápida” que muitos moradores desejam. Também não suportamos vê-los morrerem de fome, como já me sugeriram fazer, nem aguentamos presenciar eles adoecerem e morrerem à míngua, então nos dispomos a cuidar, mesmo sem conseguir salvar a todos das doenças nem evitar que “sumam” por obra de gente ruim.

Finalizo dizendo que esse texto é só um desabafo mesmo. Não espero com ele convencer ninguém a nos ajudar, pois se a situação em si não é suficiente para tocar o coração dos meus vizinhos, não é meu desabafo que o fará. Vivo hoje numa ilha, cercada de carros por todos os lados, quando pelo menos 60% da área comum está virando estacionamento, mas é um punhado de gatos o principal incômodo dos meus vizinhos.

P.S. Aos poucos vizinhos que gostam de animais, que como nós adotaram também seus gatos e cachorros, minha intenção não é generalizar. Reconheço o e louvo gesto de cada um que, de alguma forma, se dispõe a ajudar e a acolher esses seres inocentes que nada tem contra nós, enquanto nós — os ditos humanos — temos tanto contra eles.

Elinaudo Barbosa
Amante de gatos, idealizador do Projeto Amo Gatos

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