sábado, 22 de março de 2014

A “Marcha da Família” e a viciosidade do complexo de vira-lata

Foto do livro "Marcha com a Família",
publicado em 1964, onde se lê o cartaz
"O gigante acordou"
50 anos depois do golpe de estado que tirou do poder um presidente democraticamente eleito no Brasil, um pequeno grupo tenta reeditar a Marcha da Família, uma manifestação que antecedeu e apoiou esse golpe. Ambos, tanto o golpe quanto a marcha aconteceram naquela época sob o pretexto de estar livrando o Brasil do comunismo, regime que acreditavam estar sendo implantado aqui por Jango em aliança com Cuba.

Década e meia antes disso o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues tinha cunhado a expressão “complexo de vira-lata”, pois segundo ele “o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. E o que isso tem a ver com a tal marcha da família? Muita coisa, pode ter certeza!

Tudo indica que a tal marcha será tão pouco numerosa quanto tem sido alguns protestos de extrema-direita organizados desde o ano passado. Porém, as pessoas por trás desses movimentos representam integralmente ou em parte o pensamento de um número bem maior de brasileiros, uma legião de pessoas das diversas classes sociais que detestam o próprio país e não reconhecem nem valorizam praticamente nada do que é nosso, sejam nossas riquezas naturais, nossa cultura ou mesmo qualquer conquista que o país consiga obter, como a democracia que recuperamos depois de 20 anos de ditadura ou a recente ascensão de milhões de brasileiros para a classe média. Para essas pessoas nada disso importa, pois para elas o Brasil não importa. Para elas o Brasil não é de nada e nunca será.

Com um ódio irracional pelo próprio país — herdado daqueles que aqui vinham nos tempos coloniais para extrair riquezas e levar pra a civilizada Europa — essas pessoas odeiam também qualquer um que queira valorizar as potencialidades do Brasil e levá-lo à condição de grandeza que ele merece. Para mim a única explicação para o ódio ao Partido dos Trabalhadores é o fato de esse partido vir tentando elevar o país à sua potencial grandeza, mesmo que venha tentando fazer isso baseado na já quase ultrapassada cultura desenvolvimentista do século XX.

Na cabeça daqueles que tem o complexo de vira-lata se o país está tentando fazer algo diferente de seguir o Grande Líder, alguma coisa muito errada só pode estar acontecendo. Um partido tentando desenvolver realmente o país? Isso só pode ser obra de um bando de comunistas a serviço de Cuba, já estão até importando médicos de lá! Vamos às ruas, todos em marcha exigindo a derrubada desse governo ameaçador, pois precisamos voltar ao que sempre fomos. Vamos mostrar a eles que o gigante não está adormecido!

E antes que alguém me diga que a razão do ódio ao PT é a corrupção eu devo lembrar que essa dita corrupção está no seio de toda a política brasileira, em todas as instâncias de poder e em praticamente todos os partidos políticos, no entanto só o PT é tido como um partido integralmente composto por corruptos.

Muita gente acusa o senador Renan Calheiros de corrupto, ou a família Sarney, mas nunca vi ninguém dizendo que por isso o partido deles é um partido de corruptos. Paulo Maluf já virou até folclore quando se fala em corrupção, mas nunca li uma matéria — ou um livro — dizendo que o partido ao qual é filiado é uma quadrilha. Nem o pequeno partido de Fernando Collor, na época em que ele foi destituído da presidência por causa de um escândalo de corrupção, foi acusado de ser uma organização criminosa. Já o PT o é, o tempo todo, e por muita gente. Então pra mim esse ódio generalizado contra uma única organização partidária e contra um único governo não passa de uma justificativa psicológica pra um sentimento irracional tido não pelo PT, mas pelo Brasil.

Foi esse sentimento irracional que apoiou a derrubada Jango em 64 e é esse sentimento que vem sabotando todas as tentativas de elevar o Brasil à posição que ele merece ocupar no cenário mundial. E esse o mesmo sentimento que move aqueles que neste sábado, 50 anos depois, estarão, embora em bem menor número, marchando nas nossas capitais contra uma imaginária ameaça comunista.

Eu nem temo os que vão às ruas hoje — eles são poucos —, temo os que ficaram em casa, mas que secretamente (e muitos até mesmo inconscientemente) apóiam essa marcha ou apoiariam um golpe de direita. Esses eu temo, pois são portadores desse terrível complexo que durante séculos vem, através de um grande ciclo vicioso, impedindo o Brasil de realmente acordar, de realmente perceber seu gigantismo, de realmente ser esse gigante que até hoje só potencialmente é.

E não, eu não sou filiado ao PT e nem apoiaria um golpe de esquerda.

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